Adaptação de texto #1 …

junho 1, 2010

Adaptação do texto de Caio Fernando Abreu.

“Escrevo pra você depois de passar quase uma semana na casa da minha mãe, pra onde eu voltei depois de longos 9 meses fora.

Chove. Faz frio. É bom estar aqui. Tão bom. Faz um silêncio inspirador. Às vezes à noite eu ouço os grilos, ouço as corujas, ouço os animais noturnos fazendo sua festa. Às vezes é só a chuva mesmo, e isso já é muito bom.

Cansada, quase não durmo. E não consigo não pensar em você quando estou aqui. Estou escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. Hesito em dizer qualquer coisa tipo me perdoe, ou estamos errados, ou qualquer coisa que te tire da sua estrada, mas quero te contar umas coisas, quero te falar algumas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais. Penso em você com força e carinho.

Foi mau, ontem. Fui má, também. Mais com você, mas comigo também. Depois fiquei com medo de ficar sozinha em casa e cair na besteira de te ligar em algum momento da madrugada. Teria telefonado, não fosse tanta covardia!

Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrada. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor.Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência. E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

E você não me conhece, eu não conheço você. Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não te escrevesse. Fico deitada na cama com os olhos pregados no teto, pensando em tudo, pensando em como seria se não fossemos tão radicais.

Finjo que não fantasio, e não tenho uma imaginação fértil com as coisas do amor. Finjo. Finjo que espero não te ver me esperando na porta do prédio todas as vezes que chego. Finjo que não espero te encontrar com uma bandeira branca na mão pedindo uma trégua. Finjo que não escrevo mais seu nome no meu diário. E continuo fingindo no meu demente exercício para pisar no real. Até o ultimo momento eu esperei que você me ligasse.

Quando nos conhecemos, eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. Mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti. Minha mãe me dizendo no ouvido “há tempos não via essa luz nos seus olhos”. Eu não queria saber.

E eu me sentindo qualquer outra pessoa que não fosse eu. Talvez minha irmã, tão espontânea e tão incrivelmente solta nas suas relações amorosas. Eu mesma, sôo falsa pra mim mesma. Aquela calma, o equilíbrio dos sentimentos, a surpresa da volta da viagem pro Rio, as palavras ditas lentamente, como se escolhesse.

Você compreende tudo isso?

Quando pergunto se você compreende tudo isso, não estou subestimando você. Ah, deus, perdoe. Não sinto agressividade nenhuma em relação a você. E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto.

Não há nenhum subtexto nisto que te escrevo. Não acho bonito que a gente se disperse assim, só isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, é urbano demais – e eu, apesar de ter nascido e vivido sempre na metrópole Paulistana, não gosto desse urbanismo cravado na nossa pele. Não sei se a gente consegue ser amigos. Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo como Uma Possibilidade de Resolver Minha Solidão. Estou tentando ser honesta e limpa. Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque pra mim é difícil pra mim, e sempre foi difícil conquistar essa disciplina de domesticar os sentimentos e deixa-los equilibrados. Fico sempre tomada de paixão.

Há tempos não ficava e ao mesmo tempo era correspondida.

E toda essa praga. O que tem me mantido viva é a eterna ilusão ou a esperança que um dia me tirem do castigo e me levem pra “esse lugar confuso”, o AMOR um dia.  Mas estou aqui de castigo e proibida de ter isso, e me sinto realmente péssima de ver a minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida aos 20 anos, tão pouco. Nem vivi nada ainda. E não sou sequer promiscua. Sou romântica, desse tipo que imagina a vida toda juntos só de dar um “oi, prazer”. Esse romantismo que exige sexualidade e amor juntos, coisa que só consegui com você!

Não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Não vou me tornar assim.

Eu podia dizer que tenho saído muito, bebido muito, e sempre no final da noite me sinto sozinha e me sinto fugindo da solidão, aquela minha fiel amiga. Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em você.


De repente me passa pela cabeça que você pode estar detestando tudo isso e achando longo, apelativo, mentiroso e confuso. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de sentir. Tento não ficar assustada com a idéia que este tempo aqui é curto e que talvez não veja mais você. Sei que não fico assustada demais, e enfrento, e reconstituo os pedaços, a gente enfeita o cotidiano – tudo se ajeita. Menos a morte.

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser nova.

Somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. Me queira bem.

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Sempre tenho essa vontade de dividir a vida com você, de te contar os acontecimentos e as novidades.

Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito lindo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.

Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo,


Thaiane M.


p.s.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: